Por que utilizar a Selic para controlar a inflação?

A taxa Selic é a taxa básica de juros do país, definida periodicamente pelo Banco Central, como parte das políticas econômica e monetária. É baseado nesta taxa que o governo federal remunera os financiadores da sua dívida. Portanto, quanto maior a Selic, mais fácil para o governo rolar a dívida e conseguir novos recursos para financiar seus investimentos. Porém, como governo não tem lucro, quem paga o serviço da dívida somos nós, contribuintes, através dos tributos federais. Então, do ponto de vista de quem paga a conta, quanto mais baixa a Selic, melhor.
Do ponto de vista da sua função primordial, que é o financiamento do governo federal, encontrar um valor ideal para a taxa Selic depende de diversos fatores da conjuntura nacional e internacional. Por exemplo, se um pais com economia mais sólida que a nossa oferece uma taxa de juros de 5% aa para quem emprestar dinheiro para eles, um pais com uma economia menos sólida somente conseguirá receber empréstimos se oferecer uma taxa de remuneração de capital maior que 5% aa. Da mesma forma o endividamento interno e a solidez das contas públicas vão balizar a decisão de uma entidade financeira emprestar ou não dinheiro para determinado país.
Nesse aspecto, com a draga danada que vivem os países da chamada economia central desde 2008, o Brasil nadou de braçada e criou condições para baixar progressivamente a Selic para os níveis mais baixos da história. Porém, desde o final do ano passado essa tendência se estabilizou e inverteu, e hoje vemos a Selic casa vez mais próxima dos famigerados dois dígitos. Por que isso acontece?
Um dos efeitos colaterais da elevação da taxa básica de juros é a redução e consequente encarecimento da oferta de crédito. Isso porque os bancos que atuam no Brasil possuem uma quantidade finita de dinheiro para ser emprestada para todos os seus clientes. Quando o cliente que apresenta o menor risco de calote se propõe a pagar mais pelo empréstimo, o banco faz seu “money managent” e aloca uma maior parte dos seus recursos em títulos do governo. Pela lei da oferta e da procura, e também pela elevação do custo de oportunidade, o crédito para as pessoas e empresas fica mais caro, reduzindo o nível de consumo das famílias, o que reduz a pressão inflacionária.
É o chamado remédio amargo: para se manter a inflação sob controle, aumenta-se o valor pago em juros. Como o caixa do governo é também finito, um maior pagamento de juros resulta em menor investimento público. E menor desenvolvimento. Para manter os mesmos níveis de investimento com uma Selic mais alta, somente aumentando a tributação (o que pode ser ainda mais recessivo) ou com um crescimento vigoroso do PIB. Porém, a alta da Selic além de minar os investimentos públicos também é deletéria para os investimentos privados pois, como vimos anteriormente, o crédito fica mais caro para pessoas e empresas, e isso é um enorme freio para toda a cadeia produtiva.
Quem ganha com a alta da Selic? Bem, o controle inflacionário e a solvência da dívida do governo federal é, sem dúvida, benéfico para todos. Mas quem ganha muito mesmo com taxas de juros elevadas é o sistema bancário nacional e, principalmente, o internacional, pois bancos de economias com baixa inflação (ou até deflação) nunca conseguiriam taxas de juros de 2 dígitos com a segurança do “cliente” Brasil nos seus países. Imagine então a pressão que esse lobby faz sobre o Copom… Por isso vemos algumas figuras carimbadas na mídia e na política gritando o tempo todo: mais juros, mais juros! É briga de cachorro muito grande. E tem gente que defende eleição direta pra presidente do banco central…
Quem ganha também são os lançadores de opções, pois a Selic tem relação direta com a grega Rho, usada na precificação de opções. Quanto maior a Selic, portanto, maior será a taxa obtida com o lançamento de uma determinada opção.
Então quem perde com a alta da Selic? Também todos, pois as medidas de controle inflacionário são sempre recessivas, o que atrasa o desenvolvimento do país. Mas o pagador de impostos perde duas vezes, pois tem seu crédito encarecido e vê o dinheiro dos seus impostos desaparecer em forma de pagamento de juros.
O que eu definitivamente não entendo é o aumento da Selic para controle de inflação num momento em que o cenário internacional é amplamente favorável ao Brasil, ou seja, não há necessidade de aumentar a Selic para financiar a dívida do governo federal, ela é aumentada somente para manutenção da inflação dentro da meta. Por que o governo não utiliza o compulsório, que tem o mesmo efeito de restringir o crédito mas não encarece a dívida que os cidadãos pagam? Ou melhor ainda, realize reuniões mensais no Ministerio da Fazenda para definição da alíquota de IOF, pois o aumento do IOF restringe o crédito e controla a inflação igual ao aumento da Selic, mas não encarece a dívida e até aumenta a arrecadação, melhorando o superávit primário e as taxas de investimento público.
Pois bem. A pergunta do título não é apenas retórica. Como vocês viram, este texto não tem a pretensão de explicar o porquê de se usar a Selic como instrumento principal de controle da inflação. Pelo contrário, espero que os doutos leitores deste humilde blog consigam me esclarecer nos comentários o fundamento dessa política neste momento.
Um abraço e vamo que vamo!

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2 comentários sobre “Por que utilizar a Selic para controlar a inflação?

  1. Sou advogado e cheguei até aqui procurando uma resposta para essa pergunta. Se o momento é de dificuldade economica e até recessão, não é porque as taxas são baixas que as pessoas vão correr para pegar empréstimo. Ademais, se o Governo quiser pode impedir que os Bancos forneçam crédito para determinado perfil de cliente, uma vez que a atividade bancária é fortemente regulada, sem que isso incorra em indevida iimiscuição na livre iniciativa e liberdade de contratar que os bancos possem,

    Não entendo como essas “forças terriveis” podem ter tanto poder sobre o Governo, pois se quer citam isso como um problema. Pq fingir que quem manda no país são os eleitores, se sabemos que quem manda efetivamente é Capital Nacional e Internacional.

  2. A relação entre selic e inflação baixa não é assim tão direta como você imagina, aumento da selic não significa contenção monetária, assim como redução da selic nem sempre leva a uma expansão monetária.
    Apenas duas medidas acabam com a inflação: quantidade de dinheiro na economia tem de parar de expandir e a taxa de câmbio precisa se apreciar.

    Para entender melhor leia os seguintes artigos. O primeiro responde todas suas questões, os outros respondem a razão de termos uma taxa de juros tão alta e porque manipulam tanto ela.
    http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1574
    http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1094
    http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=344
    http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=355
    http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1538

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