Para ler

Com a volatilidade aumentando, nossas emoções ficam como um vulcão entrando em erupção e fica – como disse nosso amigo André Wolff – muito difícil resistir e operar racionalmente. Me lembrei do livro já mencionado no blog – AÇÕES PARA O LONGO PRAZO. Ontem eu li mais uma vez o capítulo em que aborda as finanças comportamentais e a psicologia do investimento.

o autor Jeremy Siegel nos conta a história de Dave, um investidor que não consegue entender porque não obtém sucesso em suas operações.  Sua esposa, após ver o marido perder 75% de sua aposentadoria na bolha da internet, o obriga a se consultar com um especialista em finanças comportamentais. Deste diálogo virtual podemos absorver um rico conhecimento sobre finanças comportamentais e buscar um autoconhecimento que nos impeça de seguir o caminho do fracasso e, muitas vezes, da depressão. Segue o diálogo:

Consultor de investimentos – Primeiro, vamos discutir sua decisão de entrar nas ações da internet. Volte a outubro de 1999. Você lembra por que decidiu comprar essas ações?

Dave – Sim. Minhas ações não estavam indo a lugar algum e meus amigos de trabalho estavam investindo na internet e fazendo bastante dinheiro. Havia muita excitação sobre essas ações, todos afirmavam que a internet era uma revolução da comunicação que modificaria os negócios para sempre.

CI – Quando todo mundo está excitado com o mercado, você deve tomar muito cuidado. O preço das ações não se baseia apenas em valores econômicos, mas também em fatores psicológicos que influenciam o mercado. O economista da Yale University, Robert Shiller, um dos líderes do movimento das finanças comportamentais, enfatizou que as modas e as dinâmicas sociais têm uma função muito importante na determinação do preço das ações. Ele demonstrou que o preço das ações tem se mostrado muito volátil para ser explicado apenas por flutuações nos fatores econômicos, como dividendos e lucros. Shiller desenvolveu a hipótese de que muito da volatilidade adicional poderia ser explicado por modas e manias que têm grande impacto nas decisões dos investidores.

Dave – Eu até tinha minhas dúvidas sobre essas ações da internet, mas todos pareciam tão certos de que elas eram vencedoras. Se eu não comprasse, sentia que estava perdendo alguma coisa.

CI – Sei. A bolha da internet e a tecnologia são um exemplo perfeito das pressões sociais que influenciam os preços das ações. As conversas nos escritórios, as manchetes dos jornais, as previsões dos analistas, enfim, todos alimentaram a compra louca dessas ações. Os psicólogos chamam essa tendência de seguir a massa de instinto de rebanho (ou efeito manada) – a tendência que os indivíduos têm para adaptar seu pensamento à opinião prevalecente. A propensão dos investidores de seguir a multidão é um aspecto permanente da história financeira. Há muitas ocasiões em que as ‘massas’ estão certas, mas, normalmente, segui-las não é um bom caminho, por exemplo: quando uma companhia faz uma oferta por outra, muitas vezes aparecem outros pretendentes; quando uma IPO tem muita procura, outros investidores aparecem querendo comprar. As pessoas têm a sensação de que ‘alguém sabe de alguma coisa’, e elas não querem perder a chance. Algumas vezes, isso até está certo, entretanto, na maior parte das vezes, está errado.”

Trading excessivo, soberba e curva representativa

CI – Dave, vamos mudar de assunto. Examinando os registros de suas operações, vejo que você era um trader muito ativo.

Dave – Eu tinha de ser. As informações novas chegavam toda hora. Então, sentia que precisava reposicionar meu portfolio constantemente para refletir as novas informações.

CI – É extraordinariamente difícil ser um trader de sucesso. Mesmo pessoas brilhantes que devotam toda sua energia ao trading de ações raramente obtêm retornos superiores. O problema é que a maioria delas tem excesso de confiança nas próprias habilidades. Em outras palavras, o indivíduo médio – não importa se é um estudante, trader, motorista ou qualquer outra coisa – acredita que é melhor do que a média, o que, é claro, se trata de algo estaticamente impossível.

Dave – O que causa essa confiança excessiva?

CI – Seu sucesso inicial alimentou sua confiança. Você e seus amigos atribuíram seus ganhos nas ações às suas habilidades como investidores, mas, provavelmente, esses resultados decorriam de uma chance e nada mais. Outra fonte de confiança é decorrente da tendência de ver muitos paralelos entre eventos que parecem ser os mesmos. Isso é chamado de distorção representativa, o que, normalmente, ocorre devido ao processo de aprendizado humano. Quando vemos algo que parece familiar, formamos uma representação heurística para nos ajudar a aprender. No entanto, as semelhanças que vemos nem sempre são válidas, e nossas conclusões são distorcidas.

Dave – Os relatórios de investimentos que recebo dizem que sempre que episódios como esse ocorreram no passado, o mercado se moveu na direção certa, o que indica que ele tende a fazê-lo novamente. Mas, quando tento utilizar essa recomendação, nunca funciona.

CI – Há anos, economistas financeiros convencionais vêm alertando sobre encontrar padrões nos dados quando, na verdade, não existe nenhum. Esse processo é chamado de ‘garimpar dados’, e nunca foi tão fácil de fazer com a popularização dos computadores. Lance algumas variáveis para explicar o movimento de preço das ações e certamente você vai encontrar algumas combinações espetaculares – tal como, nos últimos cem anos, as ações subiram em todas as terceiras quintas-feiras do mês, quando a lua é cheia. Psicologicamente, os seres humanos não são preparados para aceitar toda a incerteza que existe na bolsa. Muitos se sentem desconfortáveis em aprender e aceitar que a maioria dos movimentos do mercado é randômica e não apresenta causa ou razão identificável. As pessoas têm essa necessidade psicológica profunda de saber por que as coisas acontecem.”

Teoria da prospecção, aversão a perdas e carregar trades perdedores

CI – Deixa eu lhe fazer uma pergunta: quando você compra uma ação, como avalia seu desempenho?

Dave – Calculo quanto a ação subiu ou caiu desde que a comprei.

CI – Exato. Normalmente, o ponto de referência é o preço de compra que os investidores pagam pela ação. Eles ficam tão fixados nisso que excluem qualquer outra informação. Richard Thaler, da University of Chicago, que produziu alguns trabalhos embrionários sobre o comportamento do investidor, refere-se a isso como contabilidade mental. Quando você adquire uma ação, abre uma contabilidade mental tomando o preço de compra como ponto de referência. A mesma coisa acontece ao comprar um grupo de ações de uma vez, ou você pensa em cada ação individualmente ou agrega as contabilidades todas em uma só. O fato de estar obtendo lucro ou prejuízo vai influenciar sua decisão de vender ou não essas ações. Além disso, em contas com múltiplas perdas, você tende a agregar perdas individuais, pois imaginar um grande prejuízo é mais fácil de digerir do que pensar em um monte de pequenos. Por isso, evitar a realização de perdas se torna o objetivo principal de muitos investidores.

Dave – Você está certo. O pensamento de ter de realizar perdas em minhas ações de tecnologia me petrificava.

CI – Essa é a uma reação completamente natural. Seu orgulho é uma das principais razões pelas quais você evita vender uma ação perdedora. Todo investimento envolve um compromisso tanto emocional quanto financeiro, o que torna difícil que se avalie objetivamente. Você se sente bem por ter vendido suas ações da internet com um pequeno ganho, mas as ações de rede que você adquiriu mais tarde nunca tiveram ganho. Mesmo quando as perspectivas se mostravam péssimas, você não só se agarrou a elas como também até comprou mais, na esperança de que iriam se recuperar.

Dave – Sim, eu achava que comprar ações a preços mais baixos aumentaria minha chance de recuperar as perdas.

CI – Você e milhões de outros investidores. Em 1982, LeRoy Gross escreveu um manual para corretores de ações no qual chamou esse fenômeno de empatitis ou a doença de tentar recuperar os prejuízos. Ele afirmou que é possível que ela tenha causado mais destruição aos portfolios que qualquer outro erro. É difícil, para nós, admitir que fizemos um mau investimento e, é ainda mais difícil, admitir esse erro aos demais. Mas, para ser um investidor de sucesso, você não tem escolha a não ser agir dessa maneira. As decisões em seu portfolio devem ser tomadas pensando nas perspectivas futuras. O que aconteceu no passado não pode ser modificado, trata-se de um ‘custo morto’, como os economistas gostam de dizer. Assim, quando as perspectivas não parecerem boas, venda a ação, não importando se está no lucro ou prejuízo.

Dave – Achei que as ações estavam baratas quando comprei mais lotes. Muitas estavam 50% abaixo do topo.

CI – Baratas em relação a quê? Em relação a seu preço passado ou suas perspectivas futuras? Você pensava que uma ação estava barata porque já havia custado 80 e estava custando 40, porém nunca considerou que 40 ainda poderia ser caro. Calcular o preço ‘correto’ de uma ação é uma tarefa tão complexa que é natural utilizar os valores recentes como uma âncora e depois considerar o preço atual uma pechincha.”

Regras para evitar armadilhas comportamentais

Dave – Como posso evitar essas armadilhas comportamentais e ser um investidor de longo prazo de sucesso?

CI – Fico feliz que você não esteja fazendo trades, já que o trade de curto prazo é correto apenas para uma pequena fração de meus clientes. Para ser um investidor de longo prazo de sucesso, você tem de determinar regras e incentivos a fim de monitorar suas aplicações – isso é chamado de pré-compromisso. Assim, determine uma regra de distribuição de investimentos em ações e, depois, siga o planejamento. Se você tiver conhecimento suficiente, pode fazer isso sozinho, caso contrário, procure um consultor de investimentos. Não fique mudando o plano. Lembre-se de que os fatores básicos que geram retornos mudam muito menos do que pensamos quando estamos vendo as variações diárias de preços do mercado. Uma estratégia de investimentos disciplinada é quase sempre vencedora. Caso queira, pode continuar a fazer trades. Se você comprar ações para um trade de curto prazo, coloque uma ordem de stop loss para minimizar suas perdas. Não deixe que elas cresçam, com a esperança de que a ação voltará a subir um dia. Também não fale com seus amigos sobre seus trades. Viver se preocupando com suas expectativas fará com que você tenha mais dificuldade ainda em assumir um prejuízo e admitir que estava errando.

Dave – Tenho de admitir que, algumas vezes, eu gostava de fazer trades.

CI – Se você realmente gosta de fazer trades, crie uma pequena conta para eles totalmente separada de seu portfolio. Todas as corretagens e impostos devem ser pagos por essa conta. Considere também que o dinheiro que colocar nela pode estar totalmente perdido, visto que ele realmente pode estar. E nunca considere ultrapassar o limite rígido que você estabelecer de dinheiro, o qual pode ser colocado nessa conta.

Dave – Há muito o que absorver da sessão de hoje. Parece que eu caí em todas as armadilhas comportamentais. As boas notícias é que não estou sozinho e que seus conselhos ajudaram outros investidores.

CI – Eles não apenas foram ajudados como também prosperaram. Para muitas pessoas, o sucesso nos investimentos requer um conhecimento muito mais profundo de si mesmas acercado que o sucesso em seu trabalho ou, até mesmo, em suas relações pessoais necessita. Há muita verdade no velho adágio de Wall Street: ‘A bolsa de valores é um lugar muito caro para você descobrir quem você é’.”

Extraído de:

Livro: Investindo em ações no longo prazo: a bíblia do mercado de ações para o investidor de longo prazo

4 comentários sobre “Para ler

  1. Oi Evaldo,

    Queria trazer um questionamento sobre o tema longo prazo !

    Investir em Blue Chips é realmente uma boa estratégia no longo prazo ? Qual é a probabilidade do mercado estar precificando de maneira incorreta a Vale ou Petro ? Elas também não estão entre as melhores pagadoras de JCP e Dividendos. Por essa análise, será que a liquidez das opções é suficiente para justificar a escolha ?

    Algumas alternativas que imagino quando penso no longo prazo (10 anos, por exemplo …)

    1 – Small Caps
    Maior risco, mas ganhos potencialmente GRANDES. Vide Blog do Anderson Lueders para comparação de carteira X IBovespa. http://smallcaps.blogs.advfn.com/

    2 – Boas Pagadoras
    Tive um bom tempo Natura e lembro dos gordos depósitos de dividendos. Existem outros bons exemplos e em momentos de crise, existe um fator maior de busca o que as torna um pouco mais estaveis, vide TLPP4 em 08/09.

    Abraços,

    André

    1. Excelentes colocações André. Seguem minhas percepções
      1. As duas estratégias que você propõe são adequadas e podem trazer excelentes resultados.

      Quando fiz o MBA em finanças no Ibmec, lembro do excelente professor Hélio França dizendo que só existe UMA política adequada de dividendos: NÃO SURPREENDA O ACIONISTA. Eu concordo plenamente com ele pois:
      a) Se eu compro ações de empresas que pagam pouco dividendo, o faço devido a minha expectativa de que ela tenha muitos projetos viáveis e reinvista o lucro nestes projetos.
      b) Se eu compro ações de empresas que distribuem dividendos gordos, o faço devido a minha expectativa de que esta empresa esteja num setor mais maduro e realmente deve distribuir os lucros por não haver muitos projetos viáveis.
      c) Se ela me surpreender, fez errado. Se a PETROBRAS, por exemplo, começa a distribuir dividendos demais, significa que não há mais tantos projetos viáveis e ela está fadada a acabar. O setor vive de projetos novos pois as reservas são finitas.

      2. Eu não sou fã da VALE e da PETRO por causa apenas da liquidez das opções, eu não estou esperando receber JCP e dividendos muito altos por agora. Eu compro PETR porque trabalho lá e sei que há muita coisa boa no futuro.

      3. SMALL CAPS, para mim, é como um daqueles triciclos (motos) que tem tudo de ruim dos carros e tudo de ruim das motos, hahahaha. Eu prefiro investir em negócios realmente pequenos ou abrir empresa. Mas ainda não estou seguindo este caminho, apesar de estar em vias de.

      4. Ainda sobre as pagadoras de dividendos, eu não vejo porque comprar títulos públicos que pagam quase nada em vez de comprar ações de empresas pagadoras, principalmente quando o mercado as joga lá embaixo. A natura, por exemplo, me lembro que no ano passado chegou a ser negociada a 15 reais! Uma verdadeira pechincha. A ELET6 chegou a 20 e poucos… se eu tivesse investimentos em Renda Fixa nestes momentos, eu teria ido às compras nestas ações.

      5. Longo prazo – eu estou pensando mais em 20 a 25 anos e 10 anos seria para mim médio prazo.

      Abraços

  2. PS:
    Só um detalhe, sou editor da Campus/Elsevier e participei da escolha do livro comentado. Se tiverem boas sugestões de tradução, por favor, me mandem que analiso e na eventualidade de publicação, mando um exemplar de agradecimento 😉

    Abraços,

    André

  3. André, este livro é muito bom, parabéns pela escolha (espero esteja sendo um sucesso de vendas). Eu particularmente sou um voraz cliente da editora. Eu vou pra San Francisco em maio e devo trazer uma mala de livros, qualquer um que eu goste muito eu aviso.
    Estou sempre de olho nos livros mais vendidos da Amazon, Barnes and Noble e também acompanho o site da John Wiley and Sons, há muitos títulos que eu não vejo a hora de comprar.
    Abraços

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